Universidade do Futuro
A escalada da intolerância é o que mais preocupa na conjuntura atual, diz Haddad

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Fernando Haddad, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, veio a Porto Alegre e deu o recado: é preciso lutar contra essa onde de intolerância que tomou conta do País e que ganha espaço também no ambiente acadêmico/universitário. Em palestra na tarde desta quinta-feira (28/09), no Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA/UFRGS), ele falou sobre a urgência em se discutir e buscar saídas para manter as conquistas sociais dos últimos anos. E essa luta passa também pelo combate à intolerância, que ameaça as liberdades e a democracia.

A palestra do Ciclo Universidade do Futuro, que tem apoio da ADUFRGS-Sindical, reuniu professores, estudantes, técnico-administrativos e parlamentares, que lotaram o auditório do ILEA. Representando o Sindicato, participou o diretor de Assuntos de Aposentadoria e Previdência, professor Jairo Alfredo Genz Bolter (UFRGS/Campus Litoral Norte).  “Em nome da ADUFRGS-Sindical, gostaria de destacar que estamos envolvidos, cotidianamente, em todas as discussões que envolvem a educação pública, gratuita e de qualidade. Vivemos um período delicado, muito difícil, que exige de nós muita união e força”, disse o diretor do Sindicato.

Jane Tutikian, reitora da UFRGS em exercício, lembrou que “estamos vivemos um período de ameaças por todos os lados. Ameaça à gratuidade do ensino, ao caráter público da universidade e à autonomia”. Por isso, ressaltou a reitora, há uma luta grande pela manutenção da verba pública para o ensino, a pesquisa e a extensão. “Já cortamos a gordura, já cortamos a carne e agora chegamos aos ossos. Mas nossos ossos são fortes e vamos resistir”, metaforizou.

Fizeram parte da mesa também a diretora do IFCH, Cláudia Wassermann; o diretor do ILEA, José Vicente Tavares dos Santos; o coordenador geral do DCE, Frederico Lemos; e o deputado estadual Adão Vila Verde, representando a Assembleia Legislativa do RS.

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O legado Lula/Dilma 

Fernando Haddad iniciou a palestra falando sobre a expansão das universidades e dos institutos federais, fazendo analogia à Reforma Agrária com um diferencial: houve uma “redistribuição de terra, com multiplicação da terra”. Ou seja, foi facilitado o acesso das camadas mais pobres da população à universidade, sem tirar as vagas da classe média, uma vez que as vagas foram multiplicadas, com a criação de novas universidades e novos campi por todo o País e com a implantação do Prouni e expansão do Fies.

Em relação aos ensinos Fundamental e Médio, o ex-ministro da Educação garantiu que houve evolução em ambos, mas admitiu que o Ensino Médio estagnou, embora a taxa de matrícula líquida (15 a 17 anos) tenha subido de 22% para 56% em 15 anos.  O Ensino Fundamental e a Educação Infantil tiveram melhoras significativas, afirmou Haddad, ainda que esteja distante de um patamar ideal.

Plano de expansão ameaçado 

Com a Emenda Constitucional 95, que congela dos gastos públicos por 20 anos, a sustentabilidade do plano de expansão universitário está ameaçada. Assim como a pesquisa, responsável pelo desenvolvimento de novas tecnologias que irão garantir ao Brasil a independência tecnológica de outros países. “O orçamento para Ciência e Tecnologia em 2017 foi igual ao aplicado em 2001. Retroagimos quase 20 anos”, observou Haddad.  A luta agora, frisou, é para garantir o funcionamento básico das Instituições Federais de Ensino. Em um cenário mais estável, pode-se fazer uma reflexão sobre os erros e acertos da expansão. 

Segundo o ex-ministro, é uma falácia do atual governo dizer que se gastar muito com a Universidade não irá sobrar para a educação básica, porque não haverá desvio de recursos de uma área para a outra. Haddad lembrou também que os governos do PT haviam rompido com essa ideia de que se deve investir mais em um determinado nível da educação em detrimento de outro. Isso porque o sistema de ensino é um ciclo virtuoso: cada jovem que se forma no ensino superior irá beneficiar a próxima geração, uma vez que mães e pais letrados têm condições de ajudar os filhos com as tarefas escolares e com isso facilitam o trabalho da escola básica.

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Crise agora é cultural 

Será que há alternativa ao projeto atual de governo? Haddad lançou esta pergunta à plateia ao mesmo tempo em que ressaltava que não se pode esperar para responder em 2018. É preciso construir uma resposta antes disso, porque a crise extrapolou os aspectos social, econômico e político e agora assumiu um caráter cultural, com as manifestações ultraconservadoras que tomaram conta do País e ameaçam a democracia e a liberdade.

Na opinião do ex-ministro, hoje existe mais espaço para debate do que há um ano e a descrença da população na classe política como um todo pode ser uma aliada para se promover um recomeço. “Isso permite repensar um novo projeto de Brasil e de Universidade”, observou.

Haddad prevê muito tensionamento nesse processo de retomada de um projeto de País, que pode durar uma década ou mais. Isso se dará, segundo ele, principalmente devido à escalada da intolerância, que impede discussões estruturais e imobiliza a sociedade. “Esse pensamento conservador já chegou à Universidade. Isso explica o baixo grau de engajamento. A adesão ao pensamento tosco da intolerância cresce com a renda, as pessoas começam a pensar com o fígado e não com o cérebro”, disse.

Ele falou ainda sobre o grau de descontentamento dos jovens, que pensam em abandonar o País. “O que pode ter acontecido em cinco anos para tanta gente pensar em deixar o Brasil? Temos que refletir sobre isso. Eu confio muito na nossa capacidade de recuperação, porque o País reage fácil a qualquer estímulo positivo”, finalizou.

 

Texto e fotos: Maricélia Pinheiro/Assessoria de Comunicação da ADUFRGS-Sindical

 



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