Novo reitor do IFRS aponta caminhos para resistir aos ataques ao ensino público federal

“Os campi inacabados terão uma atenção especial da nossa parte, porque, nestes locais, os alunos padecem de problemas específicos”

“Os campi inacabados terão uma atenção especial da nossa parte, porque, nestes locais, os alunos padecem de problemas específicos”

Júlio Xandro Heck: “Precisamos estar unidos, enquanto institutos e universidades federais, para garantir que todos estes ataques não prosperem”

Eleito como novo reitor do IFRS, o professor Júlio Xandro Heck aponta que a luta e mobilização são necessárias para resistir aos ataques ao ensino público federal e considera “vital trazer a sociedade para esta defesa”. Heck comandará a instituição até 2020, em substituição ao reitor Osvaldo Casares Pinto, falecido em dezembro de 2017. Em entrevista ao Portal Adverso, o novo reitor diz que o desafio da sua gestão é buscar estratégias de arrecadação, para além das receitas ordinárias. As emendas parlamentares, que deram fôlego ao IFRS nos últimos anos, “podem ser ampliadas”, segundo ele. Outra iniciativa do novo reitor será buscar parcerias com empresas, cooperativas e ONGs, para financiar projetos de pesquisa e de extensão. Com o orçamento previsto para o IFRS em 2018, Heck prevê que as atividades de ensino irão funcionar de forma satisfatória, mas com sérios prejuízos em outras áreas. Entre as dificuldades, ele cita os recursos destinados à assistência estudantil, que, em 2018, serão equivalentes ao que o IFRS recebia em 2015, “só que com quatro mil alunos a mais”. Júlio Xandro Heck indica como prioridade para seu mandato a conclusão das obras dos campi. “Os campi inacabados terão uma atenção especial da nossa parte, porque, nestes locais, os alunos padecem de problemas específicos”, afirma.

Na eleição do IFRS, realizada em março, Júlio recebeu 4.179 votos, sendo 383 de técnicos administrativos, 460 de docentes e 3.336 de discentes, o que equivale a 34,34% dos votos válidos. A posse irá ocorrer em Brasília, ainda sem previsão de data. Confira a entrevista na íntegra:

Adverso – O calcanhar de Aquiles dos Institutos Federais tem sido a política de contingenciamento de recursos. Em 2012, o orçamento do IFRS era de R$ 55 milhões para administrar 12 campi e 12 mil alunos. Em 2017, o Instituto saltou para 17 campi e 19 mil alunos, com menos recursos. Como a sua gestão irá administrar esta realidade?

Júlio Heck – Nós, como instituição pública, não podemos perder de vista que nossa principal fonte de orçamento deve ser sim o dinheiro público, através do Ministério da Educação. O papel da reitoria é garantir que os recursos cheguem ao seu destino, que no caso é o IFRS. Não podemos perder isso de vista. Tudo que um governo, como o que temos hoje, quer é que a sejamos criativos na busca de novas alternativas de arrecadação. Isso é importante e precisa ser feito, mas a gente não pode perder de vista a natureza pública das instituições. As emendas parlamentares são uma alternativa. O IFRS tem feito isso nos últimos anos de forma satisfatória e eu acredito que possa ser ampliado. Também podemos buscar parcerias com empresas, cooperativas, ONGs, para que projetos de pesquisa e de extensão possam funcionar com dinheiro que não seja, exclusivamente, dinheiro público.

Adverso – Qual será o orçamento para o IFRS em 2018? Ele é suficiente para a manutenção das atividades de ensino, pesquisa e extensão?

Júlio Heck – O orçamento total do IFRS para 2018, incluindo o custeio, que é o funcionamento da instituição, e os recursos de capital, é de R$ 50 milhões, aproximadamente. Se pensarmos que, em 2015, o orçamento chegou a R$ 100 milhões, somando capital e custeio, vemos que os recursos caíram pela metade. Além disso, é muito importante frisar que os orçamentos de capital, destinados à compra de equipamentos e novas obras, diminuíram drasticamente. Para uma instituição que está em consolidação, como a nossa, talvez seja o recurso que mais faça falta. A situação mais grave talvez seja a dos recursos destinados à assistência estudantil, que se mantêm iguais a 2015, mas com quatro mil alunos a mais. Também é importante destacar que as atividades de extensão e de pesquisa sofrem prejuízo por conta do corte do orçamento. O IFRS tem dois programas de fomento interno muito bons, tanto na extensão quanto na pesquisa, que dependem diretamente do dinheiro que é descentralizado pelo MEC. Por óbvio, diminuindo a descentralização, nós temos prejuízos diretos no ensino, na pesquisa e na extensão. O que prevemos para esse ano é que as atividades de ensino possam funcionar de forma satisfatória e de forma necessária, mas com sérios prejuízos para o funcionamento da instituição.

Adverso – O orçamento destinado à área de investimento sofreu brutal redução de 2015 para cá, o que afetou a expansão dos novos campi. Durante sua gestão, qual será a estratégia para concluir as estruturas pendentes dos campi inacabados?

Júlio Heck – Nós temos hoje cinco campi do IFRS que ainda carecem bastante de infraestrutura física e de equipamento para o funcionamento dos seus cursos. São os campi criados nos últimos três anos, que merecerão uma atenção especial da nossa parte, porque os alunos padecem de problemas específicos. Qual é o papel da reitoria nisso? Nós teremos que intensificar o nosso corpo-a-corpo junto às forças políticas do Rio Grande do Sul, para conseguir a liberação de recursos de investimento e, assim, terminar as obras necessárias, mobiliar os laboratórios e os espaços de ensino, e também adquirir equipamentos, que são importantes para o funcionamento de todos os nossos campi, mas, principalmente, para os que estão em fase de implantação.

Adverso – A situação dos Institutos Federais, assim como de todo o serviço público, tende a ficar dramaticamente grave com a vigência da Emenda Constitucional 95. Como o senhor vislumbra este cenário durante o período de sua gestão?

Júlio Heck – Infelizmente, o cenário não é nada animador. Não só para os institutos federais, mas para a educação pública de um modo geral, no Brasil. Em 2018, teremos um orçamento com base no que foi executado em 2017, corrigido pelos indexadores oficiais de inflação. Por óbvio, isso não é suficiente para o nosso funcionamento. Nós viveremos o primeiro ano desta fatídica Emenda, que traz severas restrições a todas as instituições públicas de ensino. A gente imagina que, a médio e longo, as coisas se tornarão ainda mais difíceis. Por mais que façamos todos os movimentos e empenhemos todas as nossas forças para minimizar os efeitos da EC 95, inevitavelmente, os problemas virão e se tornarão ainda piores com o passar dos anos.

Adverso – O Brasil vive uma onda privatista, na qual o serviço público é visto como gasto. Em contrapartida, aumenta interesse das empresas privadas pela fatia do ensino que hoje é ofertado de maneira gratuita pelas instituições federais. Nessa conjuntura, o senhor vê risco para os Institutos Federais? E o que é preciso fazer para resistir à política de sucateamento das instituições?

Júlio Heck – Nós sofremos constantes ataques ao ensino público federal, ao serviço público federal e, também, ao servidor público federal. Somos taxados de ineficazes e de incompetentes, por vezes, numa clara intenção de diminuir nossa importância e mostrar que estamos com problemas nos nossos fazeres. No entanto, todas as avaliações de massa que se fazem no Brasil mostram que os resultados da rede federal são os melhores, e isso vale para qualquer avaliação que a gente se apegue. O ensino médio, nos institutos federais, domina o Enem. Os melhores resultados são obtidos pelos institutos federais, mesmo comparando com a rede pública. E o mesmo vale quando falamos de ensino superior, as universidades federais têm os melhores resultados. Mas, a despeito disso, o atual governo insiste em nos mostrar como ineficientes, como incapazes de retornar para a sociedade os investimentos que são realizados, num claro objetivo de desvalorizar o ensino público federal e permitir, com isso, que a rede privada avance sobre um espaço que nós tão bem ocupamos. É muito importante, cada vez mais, que nós saibamos trazer a sociedade para o nosso lado. Que a gente possa mostrar para a sociedade o quanto nós somos bons no que fazemos. Que formamos pessoas habilitadas e capacitadas para o mundo do trabalho. Que nós formamos cidadãos conscientes e que podem dar retorno efetivo para a sociedade. Qual a receita para resistirmos? Mobilização e luta. Não há outra forma. Talvez seja o momento, na história recente, em que mais precisamos estar unidos, para garantir que todos estes ataques não prosperem.

Adverso – Desde que o governo Temer assumiu o governo, o servidor público federal vem sofrendo severas ameaças, que vão de perdas salariais até o fim da estabilidade. Qual sua opinião sobre esse cenário? Estes fatores, de alguma forma, podem prejudicar a qualidade do ensino ofertado pelos Institutos Federais?

Júlio Heck – A impressão é que, de repente, o governo se deu conta que o servidor público é responsável por grande parte das mazelas deste País, e tem feito sistemáticas campanhas para nos desmerecer, para nos mostrar como ineficientes e, até mesmo, privilegiados. Inevitavelmente, isso chega aos servidores de forma bastante efetiva, mas não tem abalado nossos afazeres enquanto professores e servidores técnicos nos institutos federais. Nós estamos fazendo o nosso trabalho da mesma forma que fazíamos, quando não havia esse tipo de pauta colocada para a opinião pública. Por outro lado, a gente não pode garantir que, com o passar dos anos, o servidor não vá se desmobilizar, e isso refletir no nosso desempenho. O que temos hoje é um servidor público motivado, a despeito de todas as situações que nos afligem. Este cenário, que já vivemos na década de 90, com a desvalorização do serviço público e, principalmente, com a desvalorização do ensino público federal, é muito preocupante. Isso a gente não pode aceitar. Temos que nos manter muito unidos, muito coesos. A rede federal precisa estar presente nestas discussões, para impedir que os ataques venham a prejudicar nossos fazeres diários.

Adverso – Quais políticas o senhor pretende adotar, pensando na valorização do docente do IFRS?

Júlio Heck – Durante a nossa campanha, fizemos questão de não distinguir as propostas que seriam para servidores técnicos e professores. A gente entende que ambos devem ter o seu protagonismo e ambos são importantes no cenário da instituição. Apresentamos propostas que são mais direcionadas ao segmento docente. Uma questão importante para nós é a inclusão da Comissão Permanente de Pessoal Docente (CPPD) em todas as discussões institucionalmente relevantes. Nós entendemos que a CPPD tem muito a contribuir e, de fato, exercer seu papel de assessoramento. Entendemos que é muito importante para os docentes que nós possamos agilizar os fluxos para convênios e parcerias, para cooperações técnicas e atividades de pesquisa com parcerias externas. Notamos que nossos colegas têm esse desejo. Um dos nossos compromissos é tornar mais célere a celebração de convênios e termos de cooperação técnica. Também queremos implementar um programa de indissociabilidade, onde pesquisa, ensino e extensão sejam tratados conjuntamente. A ideia é que nossa instituição possa fomentar projetos que englobem as três áreas dentro de um mesmo projeto. Pesquisa, ensino e extensão e sua indissociabilidade fazem parte de todos os nossos documentos institucionais, porém, na prática, a gente percebe que eles não se concretizam como atividades indissociáveis. Além disso, queremos garantir um papel de protagonismo dos sindicatos, e aí os sindicatos de representação docentes se tornam importante. A nossa gestão quer ter um canal de escuta permanente com os sindicatos dos docentes e dos técnicos para que possamos construir pautas conjuntas e defender pautas que sejam de interesse da instituição.

Adverso – Sua gestão começa em um ano eleitoral em que a disputa promete ser muito acirrada. Na sua avaliação, isso será um empecilho ou pode ser positivo na busca de apoio político para a manutenção do ensino público gratuito e de qualidade no IFRS?

Júlio Heck – Eu acredito que pode ser positivo iniciarmos uma gestão em um período de eleições nacionais. Imagino que todos os possíveis candidatos terão a educação como prioridade. Essa é a hora de colocar a educação como prioridade de verdade, e não mais como discurso de candidato. Eu acho que a gente pode fazer desse momento um ponto a nosso favor, chamando os candidatos para nos ajudar, nesse momento tão difícil, com emendas parlamentares, com pautas da categoria. Eu acho que o resultado desta eleição pode ter uma influência direta nos institutos federais. Dependendo da proposta vencedora, poderemos ter um governo que dê a devida prioridade para a educação pública federal e, por consequência, que valorize os institutos federais. Também corremos o risco de ter forças vencedoras que entendam que a privatização ou o aumento da participação da iniciativa privada na educação seja uma saída. Sim, a eleição deste ano será muito importante para os institutos federais. Por mais que já tenhamos 10 anos e já estejamos consolidados como rede federal, ainda somos frágeis e dependemos exclusivamente do orçamento do Ministério da Educação e do MCTIC. Por conta disso, esse cenário passa a ser importante para nós.

Sobre o novo reitor

Júlio tem 40 anos e é natural de Alecrim, no noroeste gaúcho. Atua no magistério há 11 anos. É formado em Química Industrial de Alimentos, possui mestrado em Microbiologia Agrícola e do Ambiente, doutorado em Biologia Celular e Molecular e pós-doutorado em Biotecnologia. Júlio é oriundo do IFRS Campus Porto Alegre.



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