Artigo
O legado de Daniel Bensaïd (1946-2010)
Por: Marco Aurélio Weissheimer
“A crise, social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não retrocede diante de seus próprios limites e cuja desmedida e irracionalidade crescentes ameaçam ao mesmo tempo a espécie humana e o planeta, volta a colocar na ordem do dia a atualidade de um comunismo radical, invocado por Benjamin diante do aumento dos perigos do período entre guerras”.
Esse é o trecho do último artigo de Daniel Bensaïd, professor de Filosofia na Universidade Paris VII e militante de esquerda desde a juventude, que morreu dia 12 de janeiro, na capital francesa. Bensaid tinha ligações estreitas com intelectuais e políticos de esquerda do Brasil e foi um ativo participante das edições do Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
Daniel nasceu em Toulouse há 64 anos. Foi dirigente destacado do maio de 68 na França. O primeiro texto de sua autoria – junto com Henri Weber – publicado no Brasil foi “Maio de 68 – Um ensaio geral”, traduzido do francês, datilografado em matriz e rodado no mimeógrafo do DAIU (centro acadêmico da Filofia da UFRGS), em 1977. Bensaïd deixa um vasto e importante legado para o pensamento da esquerda contemporânea. Seu último artigo, uma análise sobre a atualidade do Manifesto Comunista e sobre algumas das lições que podem ser extraídas das derrotas da esquerda no século XX, pode ser visto como uma espécie de testamento político.
Um testamento coerente com a história de uma vida dedicada à militância política revolucionária na França e em vários países do mundo. Bensaïd foi um dos fundadores da Juventude Comunista Revolucionária, em 1966, e participou ativamente do movimento de Maio de 68, antes de participar da criação da Liga Comunista, em 1969, de orientação trotskista. Durante muitos anos, foi dirigente da LCR e da Quarta Internacional. Em 2009, engajou-se na criação de um novo partido de esquerda na França, o NPA (Novo Partido Anti-Capitalista). Bensaid publicou diversos livros de filosofia e debate político, ajudou a construir as revistas Critique Communiste e ContreTemps, defendendo nestes espaços um marxismo aberto e não dogmático.
Nos anos 90, já enfermo, passou a ter uma produção teórica impressionante, com dezenas de ensaios e livros, muitos deles traduzidos e publicados no Brasil, como, por exemplo, “Marx, o Intempestivo” ( Civilização Brasileira, 1999).
Até seus últimos dias de vida, seguiu trabalhando e militando. Em seu último texto, sobre o Manifesto Comunista, expressou o objetivo desse compromisso de vida, a busca de um mundo onde o livre desenvolvimento de cada pessoa é condição para o livre desenvolvimento de todos. Essa formulação clássica de Marx, observa Bensaïd no ensaio, vai na contra-mão do que comumente se associa ao pensamento do autor de “O Capital”, que seria defensor de um coletivismo radical e contra todas as formas de individualismo.
Ao contrário, ela aparece “como a máxima de um livre desenvolvimento individual que não deveria ser confundido nem com as ilusões de um individualismo sem individualidade submetido ao conformismo publicitário, nem como igualitarismo grosseiro de um socialismo de quartel”. “O desenvolvimento das necessidades e das capacidades singulares de cada um e de cada uma contribui para o desenvolvimento universal da espécie humana. Reciprocamente, o livre desenvolvimento de cada um e de cada uma implica o livre desenvolvimento de todos, pois a emancipação não é um prazer solitário”, escreve ainda Bensaid. Foi em defesa dessas idéias que dedicou sua vida e sua obra.
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