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Fórum Social Mundial, a vitória do exercito de brancaleone

Em entrevista para a Adverso, o diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, Cândido Grzybowski, faz um balanço dos 10 anos do Fórum e aponta alguns dos desafios que estão colocados para o futuro.

Por: Marco Aurélio Weissheimer
Quando o Fórum Social Mundial nasceu, em janeiro de 2001, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, a globalização ainda era cantada em prosa e verso e, seus críticos, taxados de anacrônicos, inimigos da tecnologia e malucos. Na época, o então presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a escrever um artigo chamando os organizadores e participantes do Fórum de “ludistas” (numa alusão ao movimento dos trabalhadores ingleses no início do século XIX, que destruíam máquinas por temer perderem o emprego para elas). Os supostos avanços da globalização dos mercados eram apresentados como inevitáveis e necessários para a prosperidade das nações. Dez anos depois, os mantras neoliberais não só perderam força como estão cobertos hoje por pesadas nuvens de suspeição e descrédito. E muitas das propostas debatidas e defendidas no FSM são abraçadas hoje por governantes em diversos países, especialmente na América Latina.

No plano econômico, as idéias do chamado Consenso de Washington deixaram de ser consensuais. A era de ouro (para alguns poucos) do neoliberalismo chegou ao fim. A fórmula baseada na desregulamentação e abertura dos mercados, e na livre circulação do capital deixou um legado que ameaça a estabilidade de toda a economia mundial. No plano político, o presidente da maior potência do planeta não se chama mais George W. Bush, mas Barack Hussein Obama. A guerra segue matando milhares de pessoas na África, na Ásia e no Oriente Médio, além de conflitos militares regionais em outros cantos do planeta. Ao contrário do que ocorre com outros setores, a indústria armamentista jamais entra em crise. E no plano ambiental o mundo chegou a uma encruzilhada: ou reverte o atual modelo de desenvolvimento industrial e de consumo altamente destruidor do meio ambiente, ou caminha em uma direção que ameaça a sobrevivência da chamada “civilização”, tal como a conhecemos.

É neste ambiente que o FSM retorna à Porto Alegre. O evento acontecerá de forma descentralizada em pelo menos 27 eventos regionais, nacionais e locais espalhados pelo mundo ao longo do ano. O "FSM 10 Anos: Grande Porto Alegre" será o primeiro dessa série, com mais de 500 atividades descentralizadas nas cidades de Porto Alegre e região metropolitana.  Um dos principais destaques é o Seminário Internacional “10 Anos Depois: Desafios e propostas para um outro mundo possível”, que contará com a participação de mais de 70 intelectuais e dirigentes sociais do mundo todo e que tem como objetivo avaliar a história do Fórum e debater sobre novos desafios e objetivos. O Seminário acontecerá em Porto Alegre, de 25 a 29 de janeiro.



O que mudou no mundo nestes últimos dez anos, período no qual o Fórum Social Mundial nasceu e se expandiu como força social, política e cultural?


A primeira mudança que merece destaque diz respeito às coisas que combatemos no início. Quando começamos essa caminhada parecíamos um exército de Brancaleone. Dez anos depois, muitos dos alertas que fazíamos viraram realidade. A crise veio avassaladora e hoje praticamente todo mundo defende a necessidade de alternativas nas mais diversas áreas. Começamos dizendo que outro mundo é possível. Hoje, podemos dizer que não só é possível como é absolutamente necessário.

Uma segunda mudança importante é de natureza geopolítica. Hoje temos um cenário mundial mais multilateral. A hegemonia absoluta dos Estados Unidos está em questão e há um esforço para a reconstrução do multilateralismo. Por outro lado, precisamos estar atentos, pois essa reconstrução pode ter um caráter conservador e excludente. A resistência enfrentada pela proposta de uma reforma profunda na estrutura e no funcionamento da Organização das Nações Unidas é um exemplo disso.

Outra mudança fundamental ocorreu na América Latina. Quando o Fórum Social Mundial iniciou tínhamos apenas um governo de centro-esquerda no Chile e Hugo Chávez, na Venezuela. Hoje o cenário político da região é completamente diferente. Quantos governos de esquerda e centro-esquerda temos? A América Latina mudou e o Fórum teve um papel muito importante neste processo. Evo Morales e Lula, apenas para citar dois exemplos, foram participantes de primeira hora dos debates do Fórum. Muitos outros líderes políticos do continente passaram a dialogar com a nossa agenda. Este ano, em Porto Alegre, devemos ter a presença de mais um deles, o presidente eleito do Uruguai, José Pepe Mujica.

E essas mudanças na América Latina, é importante assinalar também, ocorreram na contramão de uma guinada conservadora mundial, especialmente na Europa. Quando o Fórum iniciou, tínhamos governos socialistas ou social-democratas na França, na Itália e na Alemanha, para citar três exemplos. Hoje todos esses países são governados por conservadores. A Espanha é uma exceção neste processo, mas também está numa situação difícil. E o que dizer da situação política na África. Tomemos o caso da África do Sul, que é o “menos pior”. Depois do governo de Mandela, a situação política começou a se deteriorar. Na maioria dos outros países africanos, o quadro é ainda pior.

Outro elemento que eu gostaria de destacar é o novo papel que o Brasil passou a desempenhar no mundo. Creio que temos nossa parcela de contribuição aí, pois o Fórum Social Mundial colocou a sociedade civil brasileira no mundo. Sabemos dos limites dos movimentos sociais, organizações e sindicatos em influenciar as decisões políticas, mas, considerando o caso brasileiro e comparando com o que ocorre em outros países, fizemos muito. A verdade é que nosso país tem um novo papel (e dimensão) no mundo. O presidente Lula tem faro político e soube explorar essa nova realidade. Creio que a política externa é uma das melhores coisas deste governo em que pese algumas contradições como visitar alguns ditadores na África em busca da abertura de novos mercados. Mas a qualidade da política externa brasileira como um todo avançou muito. Um exemplo recente disso foi o papel de destaque que o Brasil na Conferência do Clima, em Copenhague.



E o que mudou no FSM neste mesmo período? As mudanças no mundo também influenciaram o Fórum?

Eu vejo algumas mudanças importantes entre nós. Se lembrarmos dos nossos primeiros debates, a agenda econômica era predominante. Debatíamos a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a proposta da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), para citar dois dos principais exemplos. Hoje o debate é outro. A OMC tornou-se quase insignificante. A idéia da ALCA foi sepultada. A pauta de debates passou a ser outra. O Fórum Social Mundial de Belém teve uma agenda sócio-ambiental impressionante. Não se discutiu OMC ou ALCA. Esses temas hoje parecem distantes. E nós contribuímos para que isso acontecesse, é importante assinalar. Foi nos primeiros fóruns que surgiu a campanha anti-ALCA. O Fórum teve influência na derrota desta proposta.

Hoje, constamos que a cultura política do Fórum Social Mundial está evoluindo. Há uma clareza muito grande que a questão social não pode ser dissociada da ambiental. Até um tempo atrás, os movimentos ambientalistas não consideravam a questão social e as organizações que lutam por causas sociais não levavam em conta a agenda ambiental. A crise ambiental planetária nos obrigou a encarar esse problema e não é possível mais separar as duas coisas.



Quais são, na sua avaliação, os desafios que estão colocados para o FSM daqui para frente?

O problema do Fórum é ele ser um fórum. Essa é, ao mesmo tempo, sua força e sua fraqueza. O FSM é uma espécie de universidade planetária, um espaço coletivo para a construção de inteligência. Todos nós temos nosso endereço local, nosso espaço de atuação local, mas a crescente interdependência e interligação do mundo nos desafiam a construir outro tipo de articulação e de ação política. Neste sentido, o Fórum traz uma renovação político-cultural muito importante. Creio que um de nossos principais desafios segue sendo tornar o Fórum mundial. Nós ainda estamos indo pouco atrás do mundo. Consolidamos até aqui o simbolismo de grandes eventos, mas não conseguimos dialogar com partes importantes do mundo. Seguimos sem entrar na Ásia e no Leste Europeu, apenas para citar dois exemplos. Cabe lembrar que o FSM aponta para um outro mundo, mas ele em si mesmo não é o agente construtor deste mundo. O protagonismo é das pessoas, das organizações e dos movimentos que lutam para construir esse mundo. O Fórum é um espaço de encontro, diálogo e articulação de quem é protagonista neste processo.

Há muitas tarefas que nos desafiam e que ultrapassam os limites do Fórum. Uma delas é buscar novas formas de construir hegemonia. Isso não se faz no Fórum e o Fórum não dá linha política para as organizações e movimentos agirem. Por outro lado, o diálogo entre os movimentos e organizações que participam do FSM ainda é problemático. Precisamos avançar muito na realização de encontros entre lutas que são comuns a diferentes regiões do planeta. A tendência dominante hoje é o diálogo entre os iguais. Corremos o risco de ficar falando fundamentalmente conosco mesmo. Existem diálogos inter-movimentos, mas eles são quase periféricos. Essa fragmentação ocorre em nome da diversidade, mas creio que é possível seguir respeitando a diversidade e a autonomia aglutinando mais os participantes e as atividades do Fórum. Não são coisas incompatíveis e contraditórias. É papel político dos organizadores informar e propiciar contatos entre pessoas da África do Sul e da Bolívia, por exemplo, que travam lutas similares.



O Ibase realizou uma nova pesquisa sobre o perfil dos participantes do Fórum Social Mundial. Quais são os principais resultados dessa pesquisa?

Há um crescimento impressionante da participação da juventude. No Fórum de Belém, por exemplo, entre os 150 mil participantes do encontro, cerca de 64% tinham até 34 anos de idade, com uma predominância na faixa entre 17 a 24 anos. E, do total de participantes, 81% possuíam curso superior ou estavam cursando. Essa pesquisa sobre o perfil dos participantes ouviu 2.262 pessoas e também fez perguntas sobre o que o Fórum tem de mais importante. A maior parte dos entrevistados respondeu “propor políticas públicas” e “oferecer espaço para trocas culturais” (ambas com 19%). O Ibase também perguntou sobre quais instituições geram mais desconfiança entre os participantes do FSM. O Fundo Monetário Internacional e empresas transnacionais ficaram na frente deste ranking com 85% e 83%, respectivamente.Particularmente, acho que um dos dados mais importantes dessa pesquisa é o que aponta a grande participação da juventude. Isso quer dizer que já podemos nos aposentar. Há uma nova geração de lutadores e lutadoras com grande energia e vitalidade e que não pára mais. É impressionante como o Fórum atrai os jovens, o que indica uma retomada do protagonismo juvenil na vida social e política do mundo.



Um dos destaques do encontro de Porto Alegre este ano será o seminário de avaliação dos dez anos de vida do Fórum Social Mundial? Em sua opinião, o que pode se esperar deste debate?


Pode apontar rumos e agendas diferentes para o processo FSM?Esse seminário está sendo promovido pelo Grupo de Apoio e Reflexão do processo FSM e deve  contar com a presença de mais de 70 intelectuais e dirigentes sociais do mundo todo. Será o primeiro evento de uma série de encontros que ocorrerão este ano. Queremos assumir uma posição mais reflexiva sobre o que foi realizado até aqui, levantando erros e acertos e avaliando a dinâmica institucional do Fórum. Houve um grande debate entre nós sobre esta décima edição. E havia um interesse muito grande de realizar um encontro em Porto Alegre. Nós unimos o útil ao agradável. Será uma ótima oportunidade para examinar os novos desafios da sociedade civil altermundista e projetar caminhos futuros para o movimento. Um momento, ao mesmo tempo, de balanço e de definição das lutas que temos pela frente. Esse debate será feito por um grupo significativo de pessoas que acompanham o Fórum desde seus  primeiros passos. Nomes como Boaventura de Sousa Santos, Susan George, Bernard Cassen, Samir Amin, Immanuel Wallerstein e Eric Toussaint, para citar alguns.



Este retorno a Porto Alegre, dez anos depois, tem algum significado especial?

Simbolicamente, Porto Alegre deveria se orgulhar de ter sido o berço do Fórum Social Mundial. Foram as condições políticas de Porto Alegre que propiciaram o início desta caminhada. E não é qualquer caminhada. Nós tornamos Davos insignificante como a “universidade” do outro lado que dominava os debates. No ano passado, quando ocorria o Fórum em Belém, a revista liberal The Economist resumiu bem esse quadro ao fazer a seguinte comparação entre os ambientes do Fórum Econômico Mundial e do Fórum Social Mundial: enquanto Davos parece um enterro, Belém é uma festa. Nosso movimento é assim desde o início, marcado por muita esperança, alegria e vida. É esse o espírito que queremos irradiar pelo mundo.



 
 
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